A quem confiamos o poder

Confiar poder a alguém nunca é um gesto inteiramente simples. Seja numa pequena comunidade ou nas decisões que alcançam toda a sociedade, essa confiança permite que determinadas pessoas façam escolhas cujas consequências se estendem muito além delas mesmas. Em períodos eleitorais, essa realidade se torna especialmente visível: diante de diferentes nomes, propostas e trajetórias, procuramos compreender não apenas o que cada pessoa pretende fazer, mas que relação mantém com a responsabilidade que deseja assumir.

Para o Espiritismo, poder e responsabilidade estão profundamente ligados. Ao tratar das leis morais em O Livro dos Espíritos, Allan Kardec examina princípios como igualdade, liberdade, justiça e vida em sociedade; em O Evangelho segundo o Espiritismo, encontramos também uma reflexão direta sobre o exercício da autoridade. Essas ideias não formam um programa político, nem oferecem uma resposta sobre quem deve receber nosso voto. Podem, porém, ampliar a maneira como pensamos sobre aqueles a quem confiamos responsabilidades que atingem a vida de muitas pessoas.

Em O Evangelho segundo o Espiritismo, uma instrução do Espírito François-Nicolas-Madeleine apresenta a autoridade como uma delegação pela qual aquele que a recebe terá de responder. Ela não seria concedida para proporcionar o prazer de mandar, nem constituiria propriedade daquele que a exerce. Quanto maior a autoridade, maior a responsabilidade pelo uso que se faz dela.

Essa perspectiva modifica um pouco a maneira de observar a vida pública. O poder deixa de ser apenas uma posição conquistada e passa a ser também um encargo. Importa o que alguém pretende realizar com ele, mas importa igualmente como compreende a própria autoridade. Há diferença entre enxergar o poder como encargo e enxergá-lo como instrumento de afirmação pessoal. Essa diferença pode aparecer na trajetória de uma pessoa: na maneira como utiliza a influência que já possui, na relação com aqueles que dela dependem e na forma como reage quando encontra limites ou oposição.

O Espiritismo oferece ainda uma perspectiva particularmente interessante sobre aquilo que torna uma sociedade verdadeiramente avançada. Na questão 793 de O Livro dos Espíritos, Kardec pergunta por quais sinais se poderia reconhecer uma civilização completa. A resposta não toma a riqueza ou o desenvolvimento material como medida principal, mas destaca o desenvolvimento moral. No comentário que acompanha a questão Kardec apresenta características concretas: menos egoísmo, cobiça e orgulho; leis que não consagrem privilégios; justiça exercida com menor parcialidade; proteção do fraco diante do forte; respeito à vida, às crenças e às opiniões; e menor número de pessoas privadas do necessário.

É difícil ler essa passagem sem perceber sua dimensão social. Ela não determina um sistema econômico ou uma política pública. Pessoas podem concordar com os mesmos princípios e divergir sinceramente sobre os melhores meios de realizá-los. Mas Kardec oferece uma referência para pensar o progresso de uma sociedade: não apenas quanto ela produz ou se moderniza, mas como organiza as relações entre aqueles que nela vivem.

Isso pode ampliar também nosso olhar sobre propostas políticas. Além dos benefícios prometidos, podemos considerar que sociedade elas ajudam a construir. Favorecem privilégios ou direitos para todos? Como atingem aqueles que dispõem de menos poder? Respeitam crenças e opiniões diferentes? Quais podem ser suas consequências para quem está fora do grupo que as defende?

A lei de igualdade acrescenta outra dimensão. Em O Livro dos Espíritos, afirma-se que todos os seres humanos são iguais perante Deus, e Kardec relaciona as desigualdades sociais criadas pelos homens ao orgulho e ao egoísmo. Essa igualdade não significa que todos possuam as mesmas aptidões ou condições, mas impede que posições terrenas estabeleçam uma superioridade essencial de um ser humano sobre outro.

O mesmo raciocínio alcança a liberdade. Ao tratar da liberdade de consciência, Kardec considera contrário ao progresso criar obstáculos à consciência alheia. A questão torna-se particularmente significativa quando pensamos em poder político: não basta defender as liberdades que desejamos para nós mesmos, há também a liberdade daquele que professa outra religião, sustenta outra opinião ou pertence a outro grupo.

Uma sociedade plural inevitavelmente contém divergências. A questão é o que fazemos com elas quando dispomos de poder.

É nesse ponto que liberdade e justiça se aproximam. Ao refletir sobre o progresso da legislação humana, Kardec observa que os mais fortes, em sociedades menos desenvolvidas, fizeram leis em benefício próprio. À medida que se compreende melhor a justiça, as leis tendem a aproximar-se da lei natural e a ser feitas para todos.

Talvez esteja aí uma pergunta especialmente relevante para a perspectiva espírita sobre a política: para quem o poder é exercido?

Governar uma sociedade significa necessariamente alcançar pessoas que não pertencem ao mesmo grupo, não compartilham das mesmas crenças e nem sempre possuem os mesmos interesses. A autoridade pública, por sua própria natureza, alcança também aqueles que não apoiaram quem a exerce. Por isso, pode ser significativo observar como alguém que pretende exercer poder lida com adversários, críticas, limites à própria autoridade e direitos daqueles que não integram sua base de apoio.

Nada disso exige que encontremos pessoas perfeitas. A própria visão espírita compreende a humanidade como estando em processo de desenvolvimento, sujeita à lei do progresso. Mas reconhecer a imperfeição humana não significa considerar indiferente a maneira como o poder é exercido.

Também convém distinguir habilidade política de orientação moral. Inteligência, comunicação, liderança, conhecimento técnico e habilidade para negociar podem ser qualidades importantes. Entretanto, não respondem sozinhas à pergunta sobre o uso que será feito dessas capacidades. Uma pessoa pode ser extremamente hábil para alcançar determinado objetivo; permanece a questão sobre quem será beneficiado, quais meios serão considerados aceitáveis e quais limites serão respeitados.

Talvez seja essa uma das contribuições mais discretas das leis morais para nossa relação com a política. Elas não substituem a análise de propostas, trajetórias ou consequências concretas, nem transformam o Espiritismo numa doutrina partidária. Elas ampliam o campo da reflexão.

Em períodos eleitorais, continuaremos diante de candidatos imperfeitos, propostas discutíveis e escolhas sobre as quais pessoas sinceras poderão chegar a conclusões diferentes. As leis morais não eliminam essa complexidade. Elas nos convidam a olhar além de quem desejamos ver no poder e considerar também que compreensão de poder, justiça, igualdade, liberdade e responsabilidade desejamos ver presente na vida coletiva.


🤔 Para refletir

Que relação percebo entre a forma como alguém trata adversários e a maneira como poderá exercer autoridade sobre toda a sociedade? O que uma sociedade mais justa, livre e fraterna significaria concretamente para pessoas que vivem realidades diferentes da minha?


📚 Leituras para aprofundar

Allan Kardec. O Livro dos Espíritos. Parte Terceira, Capítulo VIII — Lei do progresso, especialmente questões 793 e 795

Allan Kardec. O Livro dos Espíritos. Parte Terceira, Capítulo IX — Lei de igualdade, questões 803 a 816

Allan Kardec. O Livro dos Espíritos. Parte Terceira, Capítulo X — Lei de liberdade, especialmente questões 835 a 842 (Liberdade de consciência)

Allan Kardec. O Livro dos Espíritos. Parte Terceira, Capítulo XI — Lei de justiça, de amor e de caridade, questões 873 a 879

Allan Kardec. O Evangelho segundo o Espiritismo. Capítulo XVII — Sede perfeitos, item 9 (Os superiores e os inferiores)

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