A liberdade possível

Diante de uma perda, de uma mudança inesperada, ou de uma circunstância que não conseguimos evitar, podemos nos perguntar se aquilo já estava destinado a acontecer. Em outros momentos, sobretudo diante de decisões importantes, sentimos que tudo depende das escolhas que fizermos. Olhando para trás, percebemos acontecimentos que mudaram profundamente nossa vida sem que os tivéssemos escolhido, mas também caminhos que hoje reconhecemos como consequência de nossas decisões. Afinal, até que ponto aquilo que vivemos seria obra do destino, e até que ponto realmente existe poder de escolha?

Ao tratar do livre-arbítrio em O Livro dos Espíritos, Allan Kardec parte de uma ideia bastante simples: se temos liberdade de pensar, também temos liberdade de escolher como agir. Sem essa possibilidade, o ser humano seria apenas uma máquina. A liberdade, porém, não significa que possamos escolher todas as circunstâncias em que viveremos nem realizar tudo o que desejamos.

Na mesma obra, quando Kardec pergunta se todos os acontecimentos da vida seriam predeterminados, a resposta distingue as provas que fazem parte da experiência do Espírito das escolhas morais realizadas durante a existência. Certas circunstâncias podem integrar o gênero de provas escolhido antes da encarnação; diante delas, porém, permanece a liberdade de ceder ou resistir, agir desta ou daquela maneira. A fatalidade pode existir em relação a certos acontecimentos materiais independentes de nossa vontade, mas não em relação aos atos da vida moral, nos quais permanece a liberdade de escolha.

Essa distinção muda bastante a maneira de pensar o destino. Em vez de imaginar a existência como um roteiro no qual cada acontecimento já estaria escrito, talvez possamos pensá-la como um campo de experiências no qual certos gêneros de provas podem ter sido escolhidos, enquanto muitos acontecimentos decorrem das circunstâncias, de nossas próprias ações ou das escolhas de outras pessoas, permanecendo abertas inúmeras possibilidades.

Kardec desenvolve essa ideia ao tratar da escolha das provas. Segundo O Livro dos Espíritos, o Espírito escolhe o gênero de provas pelas quais passará, mas isso não significa que conheça antecipadamente tudo que acontecerá. Quem escolhe uma estrada difícil sabe que ela comporta obstáculos, mas isso não significa que conheça cada dificuldade nem que cada passo esteja previamente determinado. Essa distinção evita o equívoco de imaginar que tudo o que acontece a alguém foi escolhido antes do nascimento.

Talvez seja na combinação entre circunstância e liberdade que a questão se aproxime mais da nossa experiência cotidiana. Não há razão, nessa perspectiva, para supor que cada decisão das pessoas que nos cercam, cada mudança que nos atinge ou cada maneira como alguém nos tratará amanhã tenha sido previamente determinada. Tampouco podemos afirmar que cada perda que atravessa nossa história tenha sido previamente escolhida. Ainda assim, dentro de algumas dessas circunstâncias existe um espaço — às vezes amplo, às vezes bastante estreito — no qual podemos exercer e desenvolver nossa capacidade de escolher.

Podemos não escolher uma decepção, mas podemos construir, pouco a pouco, o que faremos com ela. Podemos não controlar o comportamento de alguém, mas participamos da construção da resposta que daremos. Podemos encontrar limites que não conseguimos remover e, mesmo assim, descobrir diferentes maneiras de atravessá-los.

Isso não significa que todas as pessoas disponham da mesma liberdade concreta. O Livro dos Espíritos reconhece que diferentes condições podem limitar ou dificultar o exercício da liberdade. A perspectiva espírita sobre a liberdade, portanto, não parece pedir que ignoremos os condicionamentos da vida, mas que procuremos reconhecer, dentro deles, qual parcela de ação realmente nos pertence.

É nesse ponto que Joanna de Ângelis acrescenta uma dimensão íntima à questão. Em Leis Morais da Vida, ao tratar do direito de liberdade, relaciona diretamente liberdade e responsabilidade. A liberdade legítima não consiste simplesmente em fazer aquilo que desejamos: seu exercício amadurece com a consciência dos próprios deveres, das consequências das escolhas e do direito do outro.

Em Momentos de Consciência, essa relação se aprofunda. Joanna apresenta a perfeição como destino do Espírito, mas observa que alcançá-la mais rapidamente ou demorar-se nesse caminho depende da vontade e do livre-arbítrio. O despertar da consciência favorece o discernimento e torna mais responsável o exercício do livre-arbítrio. Nosso percurso, assim, não é algo que recebemos pronto: participamos de sua construção pelas decisões e atitudes que assumimos.

Talvez, então, livre-arbítrio e fatalidade não sejam exatamente forças opostas. A perspectiva espírita parece colocá-los em planos diferentes. Entre as circunstâncias da vida, há condições relacionadas às experiências de nosso desenvolvimento, consequências de escolhas já realizadas e acontecimentos produzidos pela vontade de outras pessoas; diante delas, há continuamente a parcela de escolha que nos cabe.

Essa visão não nos oferece a tranquilidade de imaginar que controlamos a vida inteira. Mas também não nos deixa no lugar de simples passageiros de um destino já concluído. Entre controlar tudo e não poder escolher nada existe um território muito mais humano: o da liberdade possível.

Talvez grande parte do nosso amadurecimento esteja justamente em aprender a reconhecê-lo — e ampliá-lo. Há situações em que gastamos enorme energia tentando modificar aquilo que não depende de nós. Em outras, chamamos de destino o que talvez resulte de escolhas das quais nem sempre reconhecemos nossa participação. E há momentos em que precisamos olhar para dentro para perceber não apenas o que podemos escolher, mas também o que, em nós, influencia nossas escolhas: hábitos, medos e desejos podem fazer uma reação parecer inevitável, até que um olhar mais consciente revele outra possibilidade.


🤔 Para refletir

Há alguma situação da minha vida que eu enxergaria de maneira diferente se deixasse de perguntar “por que isso tinha de acontecer?” e passasse a perguntar “o que posso fazer diante disso?”

Em quais circunstâncias minha ideia de destino me ajuda a aceitar o inevitável — e em quais me impede de reconhecer uma escolha que ainda posso fazer?


📚 Leituras para aprofundar

Allan Kardec. O Livro dos Espíritos. Parte Segunda, Capítulo VI — Da vida espírita, Escolha das provas, especialmente as questões 258 e 259

Allan Kardec. O Livro dos Espíritos. Parte Terceira, Capítulo X — Lei de liberdade, questões 843 a 850 (Livre-arbítrio)

Allan Kardec. O Livro dos Espíritos. Parte Terceira, Capítulo X — Lei de liberdade, questões 851 a 867 (Fatalidade)

Joanna de Ângelis (psicografia de Divaldo Pereira Franco). Leis Morais da Vida. Capítulo 49 — Direito de liberdade

Joanna de Ângelis (psicografia de Divaldo Pereira Franco). Momentos de Consciência. Capítulo 12 — Consciência e Evolução

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